Entrevista com Haroldo Silva, é economista, advogado e presidente do Corecon (Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo-SP)
Autor do Livro: A Ilusão Neoliberal da Indústria
1. Haroldo, como você enxerga o momento atual da indústria moveleira brasileira?
O setor ainda enfrenta os reflexos do cenário econômico global ou já demonstra sinais consistentes de recuperação?
O Brasil passa por um processo complexo no qual se misturam boas e más notícias. A má notícia, em especial, do ponto de vista econômico é que temos a segunda maior taxa de juros reais do mundo (quando descontamos a inflação da taxa básica de juros Selic), ao longo de 2025. Isto é, qualquer investimento precisa ter um retorno superior a 10% ao ano para ser viável. No ano passado esse comparativo era da ordem de 7,4%. A diferença parece pequena, mas ela é brutal nas operações de crédito e na atividade produtiva. O objetivo do Banco Central brasileiro, ao elevar a taxa Selic, é o de reduzir o dinamismo da economia e, com isso, trazer a taxa de inflação para dentro da meta que é 3% ao ano, com um intervalo de 1,5 pp para mais ou para menos. Nesse cenário, todos os setores sofrem. Apenas para ilustrar, isso encarece o crédito, desestimula investimentos e afeta diretamente setores ligados ao financiamento, como imóveis e, consequentemente, o mobiliário.
Como resultado, o setor de fabricação de móveis que cresceu 9,8% em 2024, quando comparado com 2023, neste ano corrente ficou praticamente estagnado, com uma leve queda já contabilizada pelo IBGE (fonte desses dados) entre janeiro e outubro, comparado a idêntico período anterior. De outro lado, na mesma comparação, a indústria de transformação subiu 3,7% e cresce somente 0,2%, agora. Importante lembrar, o setor sofreu um baque muito grande em 2022, reflexo das movimentações advindas da pandemia de Covid-19.
No campo do “realismo esperançoso”, como diria Ariano Suassuna, a probabilidade é que em 2026 o resultado da indústria moveleira seja melhor. Os juros tentem a cair, ao longo de 2026, e, como efeito, a demanda por bens moveis crescer, por conta da maior demanda por financiamento imobiliário. Impossível cravar um número específico sem um trabalho econométrico focado para isso. Mas, a expectativa segue positiva para 2026 para o setor.
Acrescento, numa análise que se coloque o mês de janeiro de 2019 – antes da pandemia, portanto – como base, a indústria de transformação já recuperou aquele momento e está 2,4% acima. No entanto, a indústria de móveis está 17,3% abaixo daquele nível.
2. O consumidor mudou — e o modo de morar também.
Como essa transformação no comportamento das pessoas impacta a produção e o posicionamento das empresas em geral? E da moveleira?
Sim, o consumidor mudou muito. Todos mudamos, depois da pandemia. Mais especificamente em relação ao setor de móveis é possível frisar, hoje, mais do que antes, o consumidor busca conforto, ergonomia e flexibilidade funcional dos móveis, especialmente pensando em pequenos espaços, uma tendência das grandes cidades que oferecem apartamentos cada vez menores, sobretudo os “estúdios”. Isso exige uma mudança profunda na forma de se comprar móveis que sejam adequados e de uso múltiplo, pensando no home office, por exemplo.
Do ponto de vista empresarial, esse cenário exige mais flexibilidade produtiva: maior variedade de modelos, cores e configurações para um consumidor cada vez mais exigente, atento à sustentabilidade e com orçamento mais restrito. Ao mesmo tempo, vivemos uma mudança estrutural no consumo, com maior valorização de serviços e experiências, ao invés da simples aquisição de bens, como ocorria nas gerações passadas.
Nesse sentido, estratégias que ampliem as formas de uso para além da compra como já acontece no setor automotivo já ganham relevância. Com isso práticas de sustentabilidade, como reflorestamento, reuso, reciclagem, logística reversa e, sobretudo, circularidade, fortalecem a imagem das empresas junto à nova geração de consumidores. Quando tudo isso vem aliado a estilo e bom design, recurso central da economia circular com o resultado muito melhor.
3. Falando de mercado global, quais são as oportunidades e desafios para o móvel brasileiro competir lá fora?
Mesmo diante do tarifaço de Trump, o setor continuou exportando, mas ainda não temos os números finais do ano para dizer exatamente o impacto disso. Os EUA são nosso principal mercado comprador, com algo de 35% do total exportado em anos anteriores à restrição imposta. No primeiro trimestre de 2025 o setor havia vendido ao exterior US$ 173 milhões em produtos acabados, segundo apuramos. Isso por si só mostra que há espaço para vendas de moveis brasileiros para mercados globais, em especial para a América Latina. Aliás, a lição que se pode aprender em relação ao episódio envolvendo as sobretaxas americanas é: busquem outros mercados, diversifiquem. É uma estratégia complexa, de longo prazo, mas relevante para a perenidade das empresas deste e de outros setores exportadores.
4. É uma questão de custo, identidade ou posicionamento estratégico?
É uma questão de sobrevivência, pois quem não é competitivo para exportar pode não ser competitivo em seu próprio mercado. O segmento de moveis é amplo. Claro que não dá para ser competitivo em tudo, fundamentalmente quando se opera num país que tem um custo adicional de R$ 1,7 trilhão/ano em comparação ao que os países da OCDE (Organização para a Cooperação para o desenvolvimento Econômico) têm. Porém, seja em moveis de madeiras, estofados, planejados, moldurados ou coorporativos, existem muitas oportunidades, cabe a cada um encontrar a sua.
5. Você costuma abordar em suas análises o impacto das políticas econômicas sobre a indústria. Quais medidas poderiam impulsionar o setor moveleiro, especialmente as pequenas e médias empresas?
Sem dúvidas uma melhoria nas condições de crédito para produção e modernização, com ganhos de produtividade. Programas como o Brasil Mais Produtivo podem ajudar muito nesse processo. Aproximar as demandas do setor – de forma organizada e estruturada – junto ao Sebrae e mesmo em relação à ApexBrasil, são ações recomendáveis. O custo de capital para os pequenos está por volta de 25% de juros ao ano, algo impraticável e quase impossível de pagar, para qualquer atividade lícita. Cabe ao empresário deste setor evitar ao máximo trabalhar com capital de terceiros, nesse cenário. Se isso for impossível, que busque pagar as dívidas mais caras e avaliar outras opções, como linhas do BNDES, por exemplo. Isso é fundamental para impedir que tenhamos uma avalanche de empresas em dificuldades, com pedidos de recuperação judicial e mesmo que isso resulte em demissões. Resumindo, medidas centrais aqui seriam:
- Crédito em condições adequadas para modernização e, com isso;
- Aumentar a produtividade, sobretudos das MPMEs. Na macroeconomia, a redução dos juros ajudará no aumento da demanda;
- Investir nas plataformas digitais como canais de vendas consistentes e atraentes é algo central. Atrair o consumidor pela internet é mais barato e eficaz do que ter um grande espaço num endereço caro, sobretudo quando se é uma empresa de menor porte.
6. Por fim, olhando para o futuro, quais movimentos — econômicos, tecnológicos ou culturais — devem redesenhar o mercado em geral e moveleiro nos próximos anos.
As macrotendências estão dadas: famílias menores com maior expectativa de vida e idade média mais elevada, acompanhando a inversão da pirâmide etária brasileira apontada pelo IBGE, passam a viver, cada vez mais, em espaços menores. É disso que se trata. Claro que sempre haverá nichos de mercado com poder aquisitivo mais elevado. Contudo, o volume mais amplo estará neste primeiro grupo. A classe média também está mais seletiva, sobretudo no pós-pandemia. Querem qualidade, durabilidade e design, melhor ainda se isso vier garantido com sustentabilidade. Outro aspecto interessante é que a tecnologia aliada aos móveis também é apreciada e remunerada pelo consumidor atual. Importante ponto para agregação de valor. Um sofá resistente a pets, tem mais valor? Creio que sim.
Outro ponto que é uma verdadeira revolução em curso é a Inteligência Artificial. Os empresários têm que adotá-la como parceira de suas decisões e de melhoria de processos e redução de custos, inclusive redução do custo do trabalho, por meio do aumento da produtividade total dos fatores (capital e trabalho combinados).
Finalmente, queria chamar a atenção para um assunto transformador que não pode ser negligenciado por ninguém: a Reforma Tributária que entrará em vigor já em 2026, iniciando a fase de transição até 2033. Você empresário deve estar muito bem assessorado, sob pena de não conseguir sobreviver a este intervalo. Os preços relativos – entre o que você compra e o que você vende – serão duramente modificados.
7. No que ficar atento sobre a Reforma Tributária?
Você já sabe quais os créditos tributários que não podem ser aproveitados por sua empresa agora e que poderão ser a partir da reforma? Qual é o preço de venda que você aplicará ao seu principal produto que contribui para o resultado do seu negócio? Sua cadeia logística está apropriada para esses novos tempos que virão? Se sua empresa está numa unidade da Federação que lhe dá benefício tributário? Com o final desse estímulo ainda será uma vantagem manter a fábrica aí? Seus fornecedores são do Simples Nacional e passarão a ofertar crédito tributário em qual medida para o seu empreendimento? E você que é do Simples, vai continuar como está ou vai optar a aderir o sistema de apuração detalhada de débito e crédito para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços)?
Finalizando, se não soube responder alguma dessas perguntas, é hora de começar a preparar-se, se for o caso com ajuda de profissionais qualificados, pois seus concorrentes já estão fazendo isso. Em economia, existem eventos que são inesperados, como uma desvalorização ou valorização abrupta da nossa moeda. Mas, outros temas são previsíveis, como é o caso da reforma tributária. Nesse caso, há tempo de agir. Pouco, mas há.


